Espaço–Corpo–Movimento: territórios, práticas e deslocamentos contemporâneos

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DOI:

https://doi.org/10.48619/cap.v8i1.A1351

Resumo

Pensar o mundo contemporâneo implica, inevitavelmente, pensar os modos pelos quais nos movemos, habitamos e somos afetados pelos espaços que produzimos e que, simultaneamente, nos produzem. É nesse entrelaçamento que se situa o dossiê “Espaço–Corpo–Movimento: territórios, práticas e deslocamentos contemporâneos”, dedicado a investigar as relações entre espacialidade, corporeidade e movimento como dimensões indissociáveis da experiência contemporânea.

Espaço, corpo e movimento não são aqui compreendidos como categorias autônomas ou previamente delimitadas. Ao contrário, interessam-nos os processos pelos quais essas dimensões se constituem mutuamente, produzindo territórios, paisagens, práticas sociais, formas de vida e modos de subjetivação. O espaço deixa, assim, de ser tomado como mero suporte ou cenário das ações humanas para ser compreendido como experiência vivida, relacional e processual. O corpo, por sua vez, não aparece apenas como presença situada no espaço, mas como potência sensível, política e criadora, capaz de produzir e transformar territórios. O movimento, finalmente, ultrapassa a ideia de simples deslocamento físico para assumir também a condição de força de transformação, de passagem e de devir social, ecológico, político e simbólico.

Essa perspectiva torna-se particularmente relevante diante das profundas transformações que atravessam o presente. Fluxos globais de pessoas, mercadorias, imagens e informações coexistem com migrações, deslocamentos forçados, conflitos territoriais e diferentes formas de mobilidade. Ao mesmo tempo, cidades e paisagens são continuamente reconfiguradas por processos de urbanização, financeirização, emergência climática, transformações ambientais e disputas pelo direito de habitar e produzir o espaço. Entre mobilidades intensificadas e experiências de imobilidade, entre territórios de pertencimento e situações de deslocamento, emergem novas formas de relação entre corpos, lugares e ambientes.

É nesse campo de tensões que se inscrevem as contribuições reunidas neste dossiê. Interessa-nos compreender de que maneira os corpos produzem espacialidades e, reciprocamente, como os espaços modulam percepções, comportamentos, relações sociais e possibilidades de existência. Trata-se, portanto, de deslocar o olhar do espaço como objeto para o espaço como acontecimento: aquilo que se constitui nas práticas, nos encontros, nos conflitos, nos percursos e nas experiências corporais.

As questões que orientam este número são múltiplas. Como os corpos produzem e disputam territórios nas cidades contemporâneas? Que formas espaciais emergem em zonas de transição, fronteiras e paisagens em transformação? Como mobilidade, nomadismo e deslocamento produzem microterritorialidades e novas formas de habitar? Que práticas espaciais insurgentes tornam visíveis outros modos de ocupar, atravessar e imaginar a cidade? Como as cartografias qualitativas podem evidenciar territorialidades? E como pensar as relações de interdependência entre os corpos humanos e os ambientes em um contexto de transformações ecológicas profundas?

Também comparece o papel das artes e imagens na produção de pensamentos espaciais. Práticas artísticas, experimentações visuais, intervenções urbanas e processos curatoriais podem constituir não apenas formas de representação do espaço, mas modos de conhecê-lo, experimentá-lo e transformá-lo. A arte, nesse sentido, pode operar como uma prática espacial e como um dispositivo de deslocamento, abrindo inúmeras outras possibilidades de percepção, relação e imaginação dos territórios.

Do mesmo modo, pensar o movimento implica confrontar suas dimensões políticas. Migrações, fronteiras, deslocamentos forçados, circulação desigual e direito à cidade revelam que a possibilidade de mover-se tem se transformado de maneira profundamente assimétrica. Corpos distintos encontram diferentes graus de abertura, controle, vigilância e interdição nos espaços que atravessam. Investigar as políticas do movimento significa, portanto, perguntar quem pode circular, quem pode permanecer, quem é deslocado e quem tem o direito de produzir e transformar os lugares que habita.

O dossiê acolhe, nesse sentido, outras perspectivas interdisciplinares capazes de tensionar fronteiras entre arquitetura, urbanismo, geografia, artes visuais, filosofia, antropologia, estudos ambientais e práticas curatoriais. Mais do que reunir esses diferentes campos disciplinares sob um mesmo tema, buscamos aproximar os modos diversos de produzir conhecimento sobre o espaço, valorizando tanto a investigação conceitual e empírica quanto as metodologias experimentais, as práticas artísticas e as formas de pesquisa que envolvem diretamente o corpo.

Essa abertura metodológica é fundamental para uma discussão sobre espaço, corpo e movimento. Se o espaço é experiência, sua investigação não pode prescindir daquilo que é sensível, situado e incorporado. Da mesma maneira, se o corpo é produtor de espacialidades, torna-se necessário considerar práticas de criação, performance, intervenção, caminhada, observação, registro e experimentação como modos legítimos de produzir conhecimento. O corpo-criação, nesse contexto, pode constituir não apenas objeto de investigação, mas também método, instrumento e campo de pesquisa.

Ao reunir algumas pesquisas teóricas, investigações empíricas, ensaios visuais e experimentações metodológicas, este número procura criar um campo de interlocução em torno de uma questão fundamental: o que acontece quando compreendemos o espaço a partir dos corpos que o atravessam, dos movimentos que o constituem e das relações que nele se estabelecem?

Mais do que oferecer algumas respostas definitivas, o dossiê pretende produzir deslocamentos.

Deslocamentos conceituais, ao questionar separações tradicionais entre espaço e corpo, sujeito e ambiente, permanência e movimento.

Deslocamentos metodológicos, ao aproximar diferentes formas de pesquisa e criação.

Deslocamentos políticos, ao perguntar que outras formas de vida, de habitação e de imaginação territorial podem emergir quando reconhecemos o espaço como algo continuamente produzido por corpos em movimento.

Espaço–Corpo–Movimento, portanto, não designa apenas três dimensões de uma mesma problemática. O hífen entre os termos indica justamente a relação, a passagem e a contaminação entre eles. É nesse intervalo / entre o corpo e o território / entre o deslocamento e a permanência / entre a paisagem e a experiência / entre a criação e a pesquisa / que este dossiê procura se situar.

Esperamos que os trabalhos reunidos possam, assim, contribuir para pensar os territórios contemporâneos não como formas acabadas, mas como campos abertos de disputa, experiência e transformação. E, assim possam, também, nos convidar a reconhecer, nos movimentos dos corpos e nas práticas de habitar, a potência de produzir outros espaços e, com eles, outras possibilidades e outras existências.



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Publicado

2026-03-29

Como Citar

Fiorin, E. (2026). Espaço–Corpo–Movimento: territórios, práticas e deslocamentos contemporâneos. CAP - Cadernos De Arte Pública Public Art Journal, 8. https://doi.org/10.48619/cap.v8i1.A1351